Promotor diz que Queiroz ficou surpreso com prisão e não sabe se ‘ele estava se escondendo ou era escondido por alguém’


Promotor José Claudio Baglio, do Ministério Público em Campinas, disse que a ação foi realizada sem a certeza de que Queiroz estaria no imóvel. Defesa diz que ele teme pela própria vida. ‘Queiroz disse que jamais esperava passar por aquela situação’, diz promotor do Gaeco
O promotor José Claudio Baglio, do Ministério Público de São Paulo, em Campinas, disse que Fabrício Queiroz, ex-assessor e ex-motorista do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) mostrou estar surpreso com sua prisão na casa em Atibaia, no interior de São Paulo, na manhã desta quinta-feira (18). Segundo Baglio, Queiroz foi encontrado sozinho e não é possível afirmar se ele estava se escondendo ou sendo escondido.
“Eu não quero passar impressões pessoais, mas chamou a atenção de que ele estava sozinho ali, absolutamente sozinho, os caseiros ficavam em uma casa longe, quando foi ofertado que ele ligasse para alguém ele ligou para a filha. Me pareceu que ele estava ali para alguma atividade se não permanecer na casa e não um momento da vida dele que ele estivesse de estar em São Paulo, não quero fazer ilações de que ele estava se escondendo ou sendo escondido, mas a situação era bem peculiar.”
Baglio fez parte da força-tarefa entre promotores do Rio de Janeiro e a Polícia Civil de São Paulo para cumprir o mandado de prisão de Queiroz e de busca e apreensão no imóvel. “Encontramos o senhor Queiroz deitado em um dos cômodos. Ele ficou surpreso com nossa chegada, disse que “jamais esperava”, com 30 anos de policial reformado, que tivesse que passar por aquela situação.”
Segundo o promotor, a operação foi realizada sem a certeza de que Queiroz estava no imóvel. “A gente só soube que o Queiroz estava lá quando a gente entrou no recinto. O Ministério Público de São Paulo foi acionado para saber informações sobre um endereço, mas sempre com todos cuidados e sigilosos que demandam uma situação como essa. Todos os esforços foram no sentido de efetivar o cumprimento dessas ordens judiciais.”
Baglio afirmou ainda que foi preciso acionar uma comissão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para acompanhar a diligência, tendo em vista que o imóvel tinha uma placa como se ali funcionasse um escritório de advocacia.
“Todos os indicativos era de que o local era um escritório de advocacia, algumas providências foram necessárias por conta da prerrogativas que a atividade do direito demanda, por isso acionamos a OAB para que alguns advogados da comissão de prerrogativas pudessem acompanhar a operação”, explicou o promotor.
Baglio afirmou ainda que perguntou ao Queiroz se ele se manteve isolado. “Perguntamos com quem ele tinha contato ali, ele não respondeu. Mas havia um veículo da propriedade do advogado. E o caseiro disse que ele [Queiroz] já estava há bastante tempo ali.”
A ação policial realizada na madrugada desta quinta-feira foi marcada por sigilo absoluto, tanto que os policiais só souberam duas horas antes que o alvo do mandado prisão era Fabrício Queiroz, ex-assessor e ex-motorista do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), que acabou sendo preso em Atibaia, interior de São Paulo, às 6h desta quinta-feira.
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Osvaldo Nico Gonçalves, delegado divisionário do Departamento de Capturas e Delegacias Especializadas (Decade), que coordenou a operação em São Paulo, disse que é normal as ações de cumprimento de mandado de prisão terem caráter sigiloso por razões de segurança e para evitar “vazamentos sem maldade”.
“Não soubemos. Fizemos um briefing na sede do Gaeco em Campinas às 4h. A operação foi feita com 20 policiais, saímos de São Paulo às 3h e chegamos a Campinas em uma hora. Não foi para evitar vazamento, foi um cuidado que sempre tomamos para que nenhum policial falasse, sem maldade, para algum amigo ou familiar. Esse sigilo é praxe da polícia mesmo. Em todas as ações que faço, há 20 anos, é assim”, disse Osvaldo Nico Gonçalves.
Ele afirmou ao G1 que os policiais precisaram quebrar uma corrente para terem acesso ao imóvel onde estava Queiroz. “Saímos do Gaeco às 5h e chegamos ao endereço às 6h, em total sincronia com a operação feita no Rio de Janeiro. Precisamos cortar uma corrente porque a gente tocou a campainha, mas ele [Queiroz] não ouvia, pois tinha tomado remédio para dormir e a campainha, verificamos depois, era bem fraca mesmo.”
Nico informou ainda como era a rotina de Queiroz. “Ele tinha liberdade de sair, ia para o supermercado, por exemplo, mas ele estava meio recluso por opção dele mesmo, era o pensamento dele mesmo ficar fechado.”
O mandado de prisão preventiva – sem prazo para acabar – foi expedido pela Justiça do Rio de Janeiro, num desdobramento da investigação que apura esquema de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do estado (Alerj). No esquema, segundo a investigação, funcionários de Flávio, então deputado estadual, devolviam parte do salário, e o dinheiro era lavado por meio de uma loja de chocolate e através do investimento em imóveis.
Queiroz foi preso quando estava em um imóvel de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro. Na quarta-feira, Wassef estava no Palácio do Planalto, na cerimônia de posse do ministro das Comunicações (leia mais baixo sobre a relação de Wassef com o presidente e a família).
Segundo advogado Paulo Emílio Catta Preta, que assumiu a defesa de Queiroz, ele afirmou ter recebido ameaças de morte. “Sim, ele teme pela vida dele”, disse o advogado ao ser questionado por jornalistas na porta do Presídio de Benfica, na Zona Norte do Rio, onde Fabrício Queiroz foi levado depois de ter sido preso em São Paulo.
O advogado disse não saber detalhes sobre as supostas ameaças recebidas por Queiroz. “Ele não me disse [quem fez as ameaças], mas disse que já recebeu ameaças desde que esse caso veio à tona”, enfatizou Paulo.
Catta Preta disse ainda que pretende entrar ainda nesta quinta com pedido de habeas corpus para Queiroz.
Palácio da Alvorada
Em Brasília, nesta manhã, o presidente deixou o Palácio da Alvorada, residência oficial, em um comboio em alta velocidade, e não parou para falar com apoiadores, como faz há meses.
O senador Flávio Bolsonaro disse, por uma rede social, que encara “com tranquilidade os acontecimentos de hoje” e que “mais uma peça foi movimentada no tabuleiro para atacar Bolsonaro”.
Quando o caso Queiroz veio à tona, ainda em 2018, o senador disse que “as pessoas que são suspeitas têm que ser investigadas”. No fim de maio, no entanto, classificou Queiroz como um “cara correto, trabalhador, dando sangue por aquilo que ele acredita”.
Vídeo mostra momento em que Queiroz é preso em Atibaia, no interior de SP
Em setembro de 2019, o advogado Wassef disse ao programa Em Foco, da GloboNews, que não sabia o paradeiro de Queiroz, e que não era advogado dele (veja trechos da entrevista). Um caseiro do imóvel disse à polícia, entretanto, que o ex-assessor estava lá havia um ano.
Segundo um delegado que participou da operação, foi preciso arrombar o portão e a porta da casa onde Queiroz estava. Ele não resistiu e só disse que estava muito doente. Na casa, em uma parede sobre a lareira, havia um cartaz do AI-5, ato institucional de 1968 que endureceu a ditadura militar.
Após ser preso, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro passou pelo Instituto Médico Legal na cidade de São Paulo e foi levado para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa da Polícia Civil, de onde saiu por volta das 9h50 para ser transferido para o Rio.
Menção ao AI-5, ao lado de bonecos do personagem Tony Montana, encontrada na casa em Atibaia em que Fabrício Queiroz estava escondido quando foi preso pela Polícia Civil de SP
arquivo pessoal
O Ministério Público do Rio de Janeiro pediu a prisão de Queiroz porque considerou que o ex-assessor de Flávio Bolsonaro continuava cometendo crimes e estava fugindo e interferindo na coleta de provas. A Justiça autorizou também a prisão da mulher de Queiroz, Márcia Oliveira de Aguiar. Às 10h30, ela ainda não havia sido encontrada e foi considerada foragida.
Fabrício Queiroz em foto com Flávio Bolsonaro
Reprodução/JN
No Rio, a Polícia Civil também fez buscas na casa de Alessandra Esteves Marins, que faz parte da equipe de apoio do senador Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro. Segundo as investigações, Alessandra repassou cerca de R$ 19 mil a Queiroz.
‘Conheço tudo que tramita na família Bolsonaro’, disse advogado
Fabrício de Queiroz foi preso e levado para unidade da polícia em São Paulo antes de seguir de helicóptero para presídio no Rio
Além de advogado de Flávio, Wassef defende o presidente Jair Bolsonaro no caso da facada que Bolsonaro sofreu de Adélio Bispo em Juiz de Fora (MG), durante a campanha eleitoral para a presidência da República, em 2018, e também atuou na defesa da família Bolsonaro no caso do porteiro.
Em entrevista à Rádio Gaúcha em 28 de abril, o advogado disse que está “no dia a dia” com a família presidencial:
“Eu estou no dia a dia aqui com o presidente e com a família Bolsonaro. Eu conheço tudo que tramita na família Bolsonaro”
Wasseff (à esquerda) participa de cerimônia de posse do ministro das Comunicações, em Brasília, na quarta (18)
Reprodução/TV Globo
Movimentação de R$ 1,2 milhão em 2016 e 2017
Queiroz foi assessor e motorista de Flávio Bolsonaro até outubro de 2018, quando foi exonerado. O procedimento investigatório criminal do Ministério Público Estadual do RJ que apura as irregularidades envolvendo Queiroz na Alerj chegou a ser suspenso por decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, após pedidos de Flávio Bolsonaro em 2019.
As investigações envolvem um relatório do Coaf, que apontou operações bancárias suspeitas de 74 servidores e ex-servidores da Alerj. Recursos usados para pagar funcionários na Alerj voltavam para os próprios deputados estaduais.
A movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Queiroz ocorreu, segundo as investigações, entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017, incluindo depósitos e saques.

Rodrigo Sanches/G1
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